O investimento estrangeiro direto (IED) global cresceu 6%, atingindo US$ 1,6 trilhão em 2025 e encerrando dois anos de declínio. O Brasil foi o principal destaque da América Latina, ao registrar aumento dos fluxos de US$ 63 bilhões para US$ 77 bilhões e figurar entre os cinco maiores destinos de investimento estrangeiro do mundo. Apesar disso, a recuperação global dos investimentos continua limitada, frágil e desigual, de acordo com o Relatório Mundial de Investimentos 2026, elaborado pela ONU Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
Os fluxos de capital para as economias desenvolvidas aumentaram 11%, enquanto as economias em desenvolvimento registraram crescimento de apenas 2%, atingindo US$ 901 bilhões. Os números apontam para uma recuperação que não está se traduzindo de maneira uniforme em oportunidades de desenvolvimento. A questão não é apenas quanto capital está circulando, mas para onde ele está indo, o que está sendo construído e se esse investimento está expandindo a capacidade produtiva, criando empregos, fortalecendo competências e apoiando a transferência de tecnologia.
O IED continua sendo uma importante fonte de financiamento externo para as economias em desenvolvimento, mas seu impacto depende da capacidade de gerar capacidade produtiva, empregos, qualificação profissional e transferência de tecnologia.
Recuperação frágil e concentrada
As 20 principais economias receptoras do mundo atraíram mais de 80% do investimento estrangeiro direto (IED) global em 2025, ressaltando uma tendência presente em todo o relatório: o investimento está se tornando mais concentrado entre países, setores e projetos.
A recuperação deve ser interpretada com cautela: os números gerais do IED nem sempre se traduzem em novas infraestruturas, empregos ou transferência de tecnologia. As economias em desenvolvimento receberam mais da metade do IED global em 2025, mas o crescimento foi modesto e desigual entre as regiões.
A Ásia em desenvolvimento continuou sendo a maior região receptora, atraindo US$ 644 bilhões, enquanto a América Latina e o Caribe registraram aumento de 14%, para US$ 188 bilhões, e a África recebeu cerca de US$ 70 bilhões — ainda um terço acima da média registrada entre 2010 e 2024, apesar da queda em relação ao nível excepcional alcançado em 2024.
Os países menos desenvolvidos viram os influxos aumentarem 21%, para US$ 43 bilhões, mas ainda representaram apenas 2,7% do IED global, com os fluxos concentrados em um pequeno número de economias, em sua maioria ricas em recursos naturais.
Essa concentração é particularmente visível em setores ligados à tecnologia, à energia e à política industrial. Setores estratégicos, como infraestrutura para IA, semicondutores, minerais críticos e tecnologias e serviços voltados para a transição energética, representaram 44% do valor global dos novos projetos em 2025, um aumento em relação aos 16% registrados em 2020.
As economias de baixa renda e de renda média baixa atraíram apenas cerca de 10% dos investimentos em setores estratégicos entre 2020 e 2025, em comparação com mais de 20% nos demais setores.
Os governos também estão assumindo um papel mais ativo na definição dos fluxos de investimento. Em 2025, os países adotaram um número recorde de 229 medidas de política de investimento. Embora a maioria continuasse favorável aos investidores, muitas foram concebidas para atrair investimentos para setores estratégicos, fortalecer prioridades econômicas nacionais ou responder a preocupações relacionadas à segurança econômica.
Transformando investimento em ganhos de desenvolvimento
Para os países em desenvolvimento, o novo cenário de investimento traz tanto oportunidades quanto riscos. No entanto, muitos correm o risco de ficar para trás, à medida que o investimento se torna mais intensivo em capital e tecnologia e passa a ser moldado por políticas de apoio que muitas economias em desenvolvimento não conseguem igualar.
A UNCTAD afirma que os países em desenvolvimento precisam de mais do que apenas promoção de investimentos para competir nesse ambiente.
Eles precisam de maior facilitação de investimentos, infraestrutura confiável, qualificação da força de trabalho, desenvolvimento de fornecedores e mercados regionais que tornem os projetos mais viáveis. A cooperação internacional também será necessária para garantir que as parcerias de investimento apoiem tanto a resiliência dos investidores quanto as prioridades de desenvolvimento das economias anfitriãs.
Mais capital, menos projetos: o investimento na América Latina
A América Latina e o Caribe atraíram mais investimento estrangeiro em 2025 do que no ano anterior, apesar da incerteza da economia global. De acordo com o Relatório Mundial de Investimentos 2026 da UNCTAD, os fluxos de investimento estrangeiro direto (IED) para a região, excluindo os centros financeiros offshore do Caribe, aumentaram 14%, atingindo US$ 188 bilhões.
Isso representou cerca de um quinto de todos os fluxos de IED destinados às economias em desenvolvimento. O aumento foi impulsionado, em grande parte, pela América do Sul, particularmente pelo Brasil, enquanto os investimentos ligados a commodities e a setores que apoiam a transição energética continuaram a atrair o interesse dos investidores.
As 10 principais economias receptoras representaram 95% de todos os influxos de IED na América Latina e no Caribe em 2025. Brasil e México, juntos, responderam por cerca de dois terços do total de influxos regionais, demonstrando o quanto as tendências da região foram moldadas por poucas grandes economias e por um número limitado de grandes projetos.
O Brasil foi o maior responsável pelo crescimento regional, com os fluxos aumentando de US$ 63 bilhões para US$ 77 bilhões, o que o colocou entre os cinco maiores destinos de investimento estrangeiro do mundo.
O México também continuou sendo um dos principais destinos da região, com os fluxos subindo de cerca de US$ 38 bilhões para US$ 41 bilhões, apoiados por seu papel nas redes regionais de produção e pelo investimento contínuo em serviços e manufatura.
Os maiores fluxos de entrada estiveram ligados a grandes mercados, commodities, setores relacionados à transição energética e economias integradas às principais redes comerciais e de produção. No entanto, esses fatores não se traduziram em um número maior de novos projetos na região.
Os números destacam um desafio persistente: o aumento dos fluxos de entrada não se traduz automaticamente em ganhos generalizados entre países ou setores.
Para o desenvolvimento, a preocupação não é apenas se o capital está entrando na região, mas se ele está criando nova capacidade produtiva, diversificando as economias e apoiando atividades de maior valor agregado. Grande parte do aumento concentrou-se em um pequeno grupo de países e transações, enquanto os indicadores de investimentos produtivos futuros enfraqueceram.
O relatório aponta para a necessidade de políticas que transformem o interesse dos investidores em projetos produtivos financeiramente viáveis. Para a América Latina e o Caribe, isso significa fortalecer a facilitação de investimentos e o acompanhamento pós-investimento, melhorar a logística e a infraestrutura energética, apoiar o desenvolvimento de fornecedores e utilizar a integração regional para conectar economias menores a mercados maiores e cadeias de valor. Países ricos em minerais ou com potencial para energia renovável também precisam de estratégias que incentivem a agregação de valor local, em vez de depender apenas de influxos vinculados a commodities.
Perspectivas para 2026
As perspectivas para 2026 continuam desafiadoras. A incerteza em relação à política comercial, as tensões geopolíticas, os conflitos, os altos custos de financiamento e a fragmentação econômica continuam a pesar sobre as decisões de investimento. Ao mesmo tempo, espera-se que a competição por projetos ligados a setores estratégicos se intensifique, à medida que os governos buscam garantir futuras fontes de crescimento e vantagem tecnológica.
As conclusões do relatório ajudarão a orientar as discussões no Fórum Mundial de Investimento 2026 da UNCTAD, a ser realizado em Doha, no Catar, de 25 a 27 de outubro, onde governos, investidores e parceiros de desenvolvimento discutirão como transformar um cenário de investimento mais seletivo em ganhos de desenvolvimento mais amplos.
A questão central não é mais simplesmente quanto investimento está cruzando fronteiras. É para onde esse investimento está indo, o que ele está construindo e quem se beneficiará dele.
Para saber mais, leia o Relatório Mundial de Investimentos 2026 e acesse https://unctad.org/.
Contato para a imprensa:
- Marcelo Risi, Unidade de Comunicação e Relações Externas da UNCTAD: unctadpress@unctad.org
Fonte: brasil.un.org
